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E quando pensamos que tudo sabemos sem saber que nada sabemos?

Numa recente reportagem da RTP dizia o físico português do Instituto Superior Técnico, Vitor Cardoso que sabe que as leis da matemática são a chave da compreensão natureza mas que não sabe explicar por que razão é assim. Se estivesse um bom filósofo por perto, de certeza que ensaiaria uma teoria que pudesse explicar. Isto porque o problema em si não é da competência da física, mas da filosofia da física ou da mais abrangente filosofia da ciência e porque depois o problema tem milhares de outras conexões com áreas que eventualmente não são terreno da filosofia. 
O governo português anunciou para 2020 a administração de mais duas vacinas no plano nacional de vacinação. E rapidamente li nas redes sociais comentários nada abonatórios anti vacinação e com citações de estudos a acompanhar os comentários que parecem apoiar a ideia anti vacinação. Isto mesmo contrariando os números de vidas salvas de crianças desde que existe algo como uma vacina. 
Quando queremos compreender o mundo os recursos são bastante diversos. Por exemplo, para compreender o mundo, muitas pessoas idosas com baixa formação intelectual não perdem um episódio do programa da manhã da TV. Outras procuram informação da internet, com mais ou menos detalhe. Outras investigam a sério e dedicam toda uma vida à investigação, como o caso do professor Vitor Cardoso. E outras leem livros de quem se dedica a investigar os problemas e depois publicam os seus estudos na forma de livros ou artigos. Existem, obviamente, outras formas de compreender o mundo que nos rodeia. Uma que eu aprecio bastante é viajar e conversar com as pessoas nos lugares que visito. Podem as pessoas de lugares diferentes apresentar-me as coisas de modo bastante diferente. Mas isso deixa-me sempre a pensar. Outro é a arte. Mas este texto não pretende explorar todas essas vias. Antes visa explorar alguns caminhos errados para a compreensão do mundo.
Do pouco que conheço, os programas de TV não pretendem aldrabar, mas em regra optam por confirmar apenas aquilo que já pensamos. Talvez porque isso lhes traga maiores audiências. Já investigar, por exemplo, pode ser bastante desafiante, pois coloca em causa as nossas crenças estabelecidas pela cultura ou por investigações anteriores. Mas investigar exige muito mais esforço, algum talento e muito conhecimento que pode privar uma vida inteira de outras coisas. 
Mas será que todas estas fontes de informação devem ser metidas dentro do mesmo saco? Será que todos os estudos são igualmente bons, fiáveis e que todos traduzem uma realidade mais justa sobre aquilo que o mundo é? Aceitar esta ideia incorre num perigo, que é aceitar o relativismo. O relativismo tem obviamente alguns argumentos a favor, mas é perigoso por exemplo quando se trata de um problema que coloca a vida de crianças em risco. A medicina já optou por práticas que, veio o tempo a revelar mais tarde, foram desastrosas e ter-se-iam poupado muitas vidas caso essas práticas não tivessem sido adotadas. Significa isso que a medicina deve estar no mesmo patamar que a bruxaria ou a religião? Sim, se fizermos uma interpretação simplista como a que aqui estou a referir, ou seja, «se a medicina já matou, ela continuará a matar». Acontece que se contabilizarmos as vidas salvas pela medicina e as contrapusermos às mortes provocadas pelas práticas erradas, a diferença é verdadeiramente espantosa. É desse modo que compreendemos que apesar de algumas pessoas considerarem um perigo relativo na vacinação (e segundo leio, não existe tal coisa, mas enfim), o número de vidas salvas com as vacinas é incomensuravelmente maior do que os eventuais prejuízos que algumas pessoas alegam (mesmo sem contabilizações suficientes que possam mostrar que têm razão). Mas estas confusões acontecem por uma ideia espantosamente simples: é que a ciência (e, com ela, a medicina) falha. A ciência é provavelmente a atividade humana que mais falha. O que distingue a ciência de praticamente todas as outras atividades (creio não errar se aqui escrever que é mesmo a sua marca distintiva) não é o facto de errar bastante, mas o facto de quando acerta o faz com um rigor e precisão que nenhuma outra atividade o consegue. Seria algo bizarro que apenas um grupo de pessoas tivessem acesso à verdade (por exemplo que as vacinas são bastante perigosas) e que essa verdade fosse manipulada em favor de outros interesses, como por exemplo os interesses políticos e comerciais. No que concerne à medicina e na “argumentária” vulgar, cita-se logo o interesse económico da indústria. Eu não sei bem qual é exatamente o interesse da indústria farmacêutica em vender vacinas contra a gripe. Dado que o virús é de tal modo sujeito a mutações, todos os anos a indústria tem de renovar a vacina e os custos de produção devem suplantar muitas vezes os da venda. O mesmo dos antibióticos. Eu diria que o único interesse que aqui se pode ver é o de que as pessoas não adoeçam, não morram em grande escala e o mundo se torne por causa disso um caos com fome, miséria e doença. Há certamente interesse nisto. E não deveria existir? Mas em qualquer momento de verdade há sempre quem a deturpe pelas mais variadas razões, desde as religiosas, políticas ou até, muito comum mesmo, simples ignorância, hoje em dia bastante bem promovida pela flash investigação (ler apenas títulos sem qualquer interesse pela fonte ou pelo rigor).  
Mas surge aqui um problema que me faz regressar ao início deste texto, que é também o seu motivo. Mas afinal quem sou eu que escrevo isto? Sou médico? Não. Sou cientista? Também não. Sou filósofo? Dou uns toques, mas não sou. Qual é, então, a minha especialidade? Eu sou professor do ensino secundário e ser professor do ensino secundário na área da filosofia (que envolve a lógica e o pensamento crítico) é a minha especialidade. É nisso que eu sou especialista. Se é essa a minha especialidade como é que posso estar certo que a medicina é melhor que a bruxaria, que a física sabe mais que a Cristina Ferreira da TV? Se eu nem faço física, nem vejo TV como posso saber tal coisa? Ora, não exatamente com esta formulação, é quase sempre esta a pergunta que me fazem quando discuto estas coisas. As perguntas aparecem sob outra roupagem, mas são iguais: “Por que é que os meus argumentos são melhores que os dos outros?”, “Quem sou eu para presumir que o que defendo é que é verdade?” Etc. A resposta a estas questões (que no fundo é sempre a mesma) é que depende do problema que se esteja a discutir. No caso dos problemas científicos, que são os que aqui mais analiso neste texto, (se os imigrantes trazem mais ou menos violência às nossas cidades, se a cultura islâmica é mais ou menos violenta que a “ocidental”, se os africanos são mais preguiçosos que os europeus, se as vacinas matam pessoas ou as deixam ainda mais doentes, se a intervenção humana errada acelera ou não as alterações climáticas, se salvar bancos é melhor ou pior para uma economia, etc) há dados contabilizados que nos dão as respostas. Isso é que faz a natureza de um problema ser um problema da ciência: ser possível quantificar. Desde Galileu que assim é, quando começou a aplicar a matemática a toda a realidade para a compreender. É muito a ele que devemos este método de quantificar. Mas nem todas as pessoas passam a vida a quantificar. E é de todo impossível fazê-lo nas nossas vidas. A quantificação é um processo altamente complexo e em regra feita por gente especialista e que trabalha arduamente e extensas equipas de especialistas. Se eu perguntar a 2 alunos num universo de 1000 se gostam da minha aula, estarei a quantificar. Mas certamente ninguém aceitaria que eu concluísse daí que a maioria dos alunos gostam da minha aula. E se perguntasse a 400 e dos 400, 300 dissessem que gostam, poderia eu generalizar? Agora imaginem a complexidade que é fazer isto para um universo como, por exemplo, todas as crianças que são vacinadas no mundo com a vacina X e as que não o são. Por um lado o processo é muitíssimo mais complexo pois implica muitos meios, mas por outro a generalização é mais simples. Por exemplo, num universo de 10 milhões de recém-nascidos em que 5 milhões receberam a vacina X e outros 5 não, dos que receberam observaram-se zero infeções para doença (e no caso das vacinas estes números são mesmo assim) ao passo dos que não a receberam 3 milhões morreram devido à doença. O que é melhor para as crianças, administrar ou não a vacina? Claro que dos 5 milhões que a administraram 100 crianças apanharam a doença Z e um grupo isolado de médicos suspeitam que a origem possa ser a administração da vacina. Deve-se ignorar essa hipótese? Creio que nenhum cientista sério a ignoraria. Mas não a pode considerar uma regra enquanto os dados não apoiarem a hipótese.
E então? Onde vou eu, que não sou especialista destas coisas, buscar estas informações? 
Este blogue chama-se “Pequenas Luzes” e tem como lema “Um percurso em defesa da racionalidade e do humanismo”. E é mesmo isso, um percurso. Ele foi inspirado na leitura do livro de Steven Pinker, Iluminismo Agora, Em defesa da Razão, da ciência, Humanismo e Progresso,Presença, 2018. Esse livro, um grosso volume de mais de 500 páginas, Pinker, que é cientista, trata alguns dos problemas que aqui menciono. Mas apresenta dados. Não está a dar apenas uma opinião baseada em textos avulsos de internet ou de cientistas chalados que entretanto se deixaram envolver em práticas cientificamente pouco consensuais. Mas existe todo um percurso para trás na ideia deste blogue, desde a filosofia que constitui o maior desafio às más ideias ( e não apenas às estabelecidas pois nem todas as ideias estabelecidas são necessariamente más) até ao seminal livro de Carl Sagan, Um Mundo Infestado de Demónios, publicado em 1995 (entre nós publicado mais tarde pela Gradiva). Esse livro é, quanto a mim, o primeiro livro de ciência que todos deveríamos ler. Nele, Sagan, que além de cientista brilhante, era um comunicador fascinante e invulgarmente culto, explica o que é a ciência, como a mesma funciona, por que razão a ciência é uma chave de compreensão do mundo muito preciosa, quais os seus limites e explica também porque as pessoas acreditam mais em demónios e bruxas do que na ciência, acreditam mais na história da treta do que nos factos e como se cometem vieses cognitivos. O recente livro do médico sueco, Hans Rosling,Factfullness, 10 razões pelas quais estamos errados acerca do mundo, Temas e Debates, 2019, retoma esse tema. Rosling foi sempre um homem viajado e de ação, tanto que, ao que sei nem sequer publicou muitos livros. Rosling trabalhou em contextos de pobreza extrema. E exatamente por ter percebido que no mundo rico, mesmo pessoas com alta formação académica e inteligentes, sofriam de viesses cognitivos graves, a ponto de acertarem tanto em questões como as que cito acima (vacinas, imigração, alterações climáticas, pobreza extrema, etc) como se desse essas opções a um macaco para escolher (ele próprio é que coloca as coisas nestes termos) ou seja, um macaco ao acaso acertaria tanto como estas pessoas cultas, ricas e supostamente informadas. Por que é que isto acontece? Segundo Rosling porque as pessoas ignoram os factos e quando os citam pensam com os dados de há 10 ou mais anos atrás e a realidade é já bastante diferente. Mas Rosling não diz isto porque lhe apetece. Exatamente por ter percebido esta grave ignorância e ela é grave porque nos conduz a más escolhas (não vacinar crianças, investir em contextos errados, presumir que os imigrantes são todos terroristas radicais, etc) é que Rosling passou a vida toda dedicada a recolher fundos para apoiar estudos que tratassem os dados. O resultado é a Gapminder, criada pelo próprio (https://www.gapminder.org)Rosling passou anos da sua vida a fazer o que Sagan também fez: viajar e tentar ir aos lugares elucidar as pessoas. Deu em toda a vida milhares de conferências e constatou sempre o mesmo, a ignorância generalizada. Talvez por isso mesmo, Tom Nichols tenha escrito um livro fundametal para os dias de hoje, A morte da competência, Quetzal, 2018. O cenário visto por Nichols é mais negro do que aquele que Rosling vê. Para Nichols vivemos numa época em que a opinião de uma charlatão vale tanto como a de alguém que é especialista numa determinada área de saber e investigação. E este colocar tudo na mesma prateleira e plano, conduz-nos, a vieses gritantes. 
Para sabermos alguma coisa do mundo temos de estar informados. Para estarmos informados temos de 1º pensar criticamente e 2º saber onde e como recolher a informação para pensar criticamente. Os problemas possuem naturezas diferentes. Um problema moral por exemplo pode servir-se de informação empírica, mas os dados podem também dar uma informação errada, dado que problemas de natureza moral não são comprovados com dados. Por exemplo, do facto de uma comunidade inteira aceitar o casamento de adultos com crianças, daí não se segue que seja correto casar adultos com crianças. Já o mesmo não se sucede nestes termos com problemas de natureza científica. Se os dados nos mostram a eficácia de antibióticos no combate a doenças provocadas por pequenas infeções, então temos boas razões para os administrar sob determinadas condições. Daí não se segue que estejam encerradas todas as questões. Mas muito menos se segue que dado que ainda há questões a fazer então devemos negar o recurso a antibióticos. Só pensa assim quem ignora que se vivemos com mais saúde e mais tempo, se vivemos no tempo em que menos pessoas morrem devido a pequenas infeções é porque utilizamos antibióticos e que sem eles (e é um risco que corremos daqui a uns anos devido à mutação e resistência das bactérias) o mundo seria mesmo um lugar horrível como já foi noutras alturas. Daqui também não se segue que a medicina tenha todas as respostas para a saúde. Certamente não as terá e a saúde é a combinatória de múltiplos fatores, entre os quais os principais como estilo de vida e rendimento. Ignorar o bem que nos trouxe é que é errado e nos coloca ao lado dos macacos a fazer escolhas.

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