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A mostrar mensagens com a etiqueta Educação

TECNOLOGIAS, IA E MORALIDADE.

Por vezes deparo-me com observações, quotidianas, que, como quase todas, são erros de análise do senso comum. Não existe uma fronteira muito definida para se perceber quando uma posição (ou opinião) é ou não rigorosa e fundamentada. Claro que existem os casos extremos, mas a zona entre os casos extremos é por vezes cinzenta e extensa. Uma das vantagens de se estudar e especializar é diminuir cada vez mais essa extensão. No caso que aqui me move, penso numa série de comentários acerca da IA. E creio que algumas leituras informadas nos fazem perceber sem grande esforço que a maioria das opiniões sobre a IA são mais baseadas em filmes de ficção científica do que na realidade. A ideia de que as máquinas nos dominarão vende bem (Harari sabe bem disso), mas são, para a atualidade, completamente irrealistas. A IA começa por ser baseada em algoritmos. Tal como as contas de somar também o são. Com efeito há problemas que merecem desde já ser colocados com as atuais tecnologias. Dado o desenvolv...

Quando Sísifo vai à escola

Em várias passagens dos diálogos de Platão, Sócrates parece indicar que a opinião é assim como que meio caminho entre a ignorância e o saber. Meio caminho porque lhe falta algo que no saber não falta e que, claro, a ignorância não tem. Estou a falar da justificação. É assim que eu posso ter a opinião (crença) que a terra está em movimento sem qualquer justificação e acertar em cheio sem que tal constitua conhecimento. É assim talvez que muitos alunos respondem bem a testes sem saber muito bem a matéria, pois nunca pensaram nela, nem a sabem justificar. Ou seja, podem ainda assim estar na ignorância e serem bons alunos. É que, se não erro a interpretar as palavras de Sócrates, saber implica justificar. E justificar implica uma série de outros conhecimentos que a mera crença (opinião) não exige. Mas é curioso observar como é que o ensino da era capitalista privilegia tanto este meio caminho entre a ignorância e o saber, exatamente porque a escola está transformada num mecanismo de acesso...

Para evitar a treta

  Há muitas razões para que a teoria da treta tenha amplo espaço público e uma boa disseminação. A teoria da treta é antiga, não nasceu com a geração da comunicação. E sempre se difundiu bem. A diferença é que hoje em dia aparentemente o saber e o conhecimento está acessível a todas as pessoas, mas obviamente sem os filtros da teoria da treta que são muitíssimo mais apelativos e fortes. E também é verdade que hoje, mais que no passado, mais pessoas estão informadas. Portanto, apesar de tudo, no que toca à crença irracional, este ainda é, dizem os dados*1, o melhor de todos os tempos possível. Mas vou aqui listar alguma das razões para a fama da teoria da treta:   1º Dá menos trabalho acreditar na treta, pois não exige grande esforço intelectual 2º A treta é uma resposta direta das nossas intuições (a ciência, por exemplo, é muitas das vezes contraintuitiva, tal como a filosofia) 3º A treta promete a solução mágica que o conhecimento racional e aturado não promete.   ...

Será que o uso de tecnologias no ensino aumenta as desigualdades sociais?

Será que o uso de tecnologias no ensino aumenta as desigualdades sociais? Tenho visto algum reacionarismo em relação ao recurso a tecnologias para ensinar  a distância   e uma eventual consequência negativa ao acentuar as desigualdades de acesso ao contexto escolar. Este é um problema complexo, porque social e exposto a multifatores. Depende obviamente do contexto familiar, nível de riqueza, etc... só não se percebe de todo a razão pela qual com o ensino  a distância  estes fatores sejam mais preponderantes que no ensino presencial. O fator que me parece mais relevante não é, com efeito, quase nunca citado: trata-se, com clareza, de um problema cultural. A nossa cultura de ensino é presencial e se levamos anos até aceitar as novas tecnologias (ainda com muitas reservas) nas salas de aula, como é que esperaríamos que de rompante essas tecnologias substituíssem todo um sistema que perdura nas suas estruturas mais básicas pelo menos (dizem os entendidos) desde a re...

Professores, cinema e Nicolas Cage

Eu tenho um amigo que é realizador de cinema. Como sabemos o cinema exige largos recursos. Acompanho há uns bons anos o percurso do meu amigo. Mas acabei por me tornar amigo dessa pessoa exatamente no dia em que vi pela primeira vez um dos seus trabalhos. Não, não eram os meios o foco da minha atenção. O Miguel Jardim filma com uma sensibilidade que só quem tem amor pelo cinema o consegue fazer. Não o faz por obrigação, faz o que faz porque ama o que faz. E isso revela-se no seu trabalho. É a isto talvez que se chama “talento”. E ele tem-no. Hoje em dia o Miguel já filma com mais meios e naturalmente o resultado é outro. Os meios melhoraram o trabalho, mas a sensibilidade para filmar continua ali. Recordo o Miguel porque uma vez, aquando da estreia de um dos seus filmes, a primeira aventura que ele arriscou com um público mais alargado, li uma ou duas críticas nas redes sociais que naturalmente surgiram de quem esperava ver dos filmes do Miguel aquilo que se habituou a ver nas grand...

Das dificuldades profissionais para ensinar a pensar

uma das grandes dificuldades que diagnostico nos alunos do 10º ano é no desenvolvimento de uma resposta de desenvolvimento dado que a sua capacidade argumentativa é ainda bastante rudimentar. Nada anormal para miúdos de 15 anos. A ideia é que as aulas de filosofia possibilitam esse desenvolvimento. E possibilitam? A resposta é NÃO. Quais as razões? Há alunos que trazem esta competência razoavelmente desenvolvida de casa ou até pelo seu percurso escolar mais favorável à aprendizagem (turmas boas, escolas particulares com seleção de alunos, etc), mas a maioria não. Ora quem paga a fatura mais alta são os alunos provenientes de meios familiares e contextos sociais que não favorecem o desenvolvimento desta competência de raciocínio crítico. Possivelmente não têm a oportunidade de discutir em casa, de viajar, de contactar com arte, livros, etc. E as aulas deveriam possibilitar a estes alunos o desenvolvimento desta ferramenta. Mas raramente o fazem. O que a escola faz é atirar estes alun...

A filosofia é um estudo a priori porque é de prioridades

Li esta frase escrita num teste por um miúdo de 15 anos de idade: "A filosofia é um estudo a priori porque é de prioridades". Ora bem, isto pode refletir falta de estudo. Mas também qualquer aluno "marrão" podia saber isto sem, no entanto, ter grande capacidade de abstração. Para tal basta decorar. Mas é exatamente este tipo de respostas que prototipiza o aluno médio que chega ao 10º ano: ou é aquele que decora, ou então aquele que não decora. Como é que sei isto? Basta colocar num teste uma questão que exige maior abstração e compreensão. Com 15 anos poucos lá chegam. Se não chegam são chumbados e assim perdem a oportunidade de algum dia lá chegarem. É isto que se pretende? Obviamente ninguém de bom senso aceita tal ideia. Por isso mesmo há anos que defendo que os programas de ensino estão mal desenhados. Eles estão desenhados desta forma: para cada 10 páginas de conteúdos, apresentam meia página de estratégias. Ora, eu proponho que sejam desenhados exatamente ao ...