Por vezes deparo-me com observações, quotidianas, que, como quase todas, são erros de análise do senso comum. Não existe uma fronteira muito definida para se perceber quando uma posição (ou opinião) é ou não rigorosa e fundamentada. Claro que existem os casos extremos, mas a zona entre os casos extremos é por vezes cinzenta e extensa. Uma das vantagens de se estudar e especializar é diminuir cada vez mais essa extensão. No caso que aqui me move, penso numa série de comentários acerca da IA. E creio que algumas leituras informadas nos fazem perceber sem grande esforço que a maioria das opiniões sobre a IA são mais baseadas em filmes de ficção científica do que na realidade. A ideia de que as máquinas nos dominarão vende bem (Harari sabe bem disso), mas são, para a atualidade, completamente irrealistas. A IA começa por ser baseada em algoritmos. Tal como as contas de somar também o são. Com efeito há problemas que merecem desde já ser colocados com as atuais tecnologias. Dado o desenvolvimento dos transístores, atual,ente podemos ter máquinas como smartphones que nos possibilitam algoritmos potentes. E que a maioria de nós até aprecia bastante. Por exemplo, o que faz com que as vossas fotos tiradas com o vosso smartphone sejam cada vez mais belas, não são as lentes, mas a capacidade do processador para gerar algoritmos potentes que permitam boas imagens. Por isso um Iphone com uma camara de 12 megapixeis tira melhores fotos que um Xiaomi com uma camara de 120 megapixeis. E por isso o Iphone custa muito mais que o Xiaomi, pois tem um processador muito mais potente que nos possibilita resultados muito mais eficientes e capazes. Só que temos a ideia popular que assim as máquinas nos vão substituir. Isso é, como já referi, coisa de filmes. O problema maior que nos podemos preocupar tem que ver com a autonomia das máquinas e com essa autonomia elas poderem tomar decisões. Isto em si não é mau. Acontece que se as decisões são morais, temos um problema à perna. E o problema é filosófico. Recordam-se de vos terem dito nas aulas de filosofia que os problemas de filosofia são de difícil resolução? Daí não se segue que não tenhamos boas teorias. O que acontece é que na filosofia a realidade não é ou a preto ou a branco, o que causa dificuldade a muitas pessoas, mesmo com boas formações intelectuais, mas com desconhecimento de como se processa a epistemologia humana. Em termos práticos, nós temos carros autónomos, mas não sabemos como os programar no caso em que tenham de decidir casos limites como matar ou deixar morrer. E isto é interessante pois para avaliar este problema há muitas teorias morais concorrentes. Por exemplo, nesta aula que gravei para a RTP Madeira no período da pandemia, procuro explicar a alunos do secundário como é que duas teorias podem entrar em conflito na resolução de um famoso problema, o do trólei. E é por isso também, desculpem a franqueza, que eu acho a esmagadora maioria das opiniões sobre IA, chats GPT e tecnologias em geral, apenas delírio de senso comum de quem olha para as sombras sem querer ver a realidade. E aqui temos todos de ser humildes. Também eu e todos andamos a olhar para as sombras no fundo da caverna, com a diferença que uns olham para elas acreditando com convicção inabalável que são a realidade. e outros querem com esforço procurar ver onde está a luz, mesmo que saibam que todo o tempo da sua vida não lhes permitirá tal coisa.
1. Como chegamos hoje à música Há já alguns anos que os “discos do ano” deixaram de ser, necessariamente, os melhores discos do ano. Isso deve-se às novas formas de descoberta musical. Antes do streaming e da internet massificada, ouvia-se o que cabia numa casa comum de referências: a rádio, alguns jornalistas, amigos próximos. Havia filtros claros. Hoje o filtro é o algoritmo. E, embora nada tenha contra tecnologia, a verdade é que o algoritmo nunca acertou comigo. Já passei pelo Tidal, Spotify e, mais recentemente, Apple Music. Nenhum deles me levou aos discos que realmente acabei por mais apreciar. Continuo a chegar à música através de pesquisa intensa — por vezes quase desesperada — e graças a algumas amizades que resistem nesta troca de referências, como resistem ainda o Ípsilon e, sobretudo, a ultra-resiliente Wire. Este preâmbulo importa porque, como acontece todos os anos, no início de 2026 descobrirei excelentes discos de 2025 que ficaram de fora. O que vem a seguir é simplesm...
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