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Para evitar a treta


 


Há muitas razões para que a teoria da treta tenha amplo espaço público e uma boa disseminação. A teoria da treta é antiga, não nasceu com a geração da comunicação. E sempre se difundiu bem. A diferença é que hoje em dia aparentemente o saber e o conhecimento está acessível a todas as pessoas, mas obviamente sem os filtros da teoria da treta que são muitíssimo mais apelativos e fortes. E também é verdade que hoje, mais que no passado, mais pessoas estão informadas. Portanto, apesar de tudo, no que toca à crença irracional, este ainda é, dizem os dados*1, o melhor de todos os tempos possível. Mas vou aqui listar alguma das razões para a fama da teoria da treta:

 

1º Dá menos trabalho acreditar na treta, pois não exige grande esforço intelectual

2º A treta é uma resposta direta das nossas intuições (a ciência, por exemplo, é muitas das vezes contraintuitiva, tal como a filosofia)

3º A treta promete a solução mágica que o conhecimento racional e aturado não promete. 

 

E vou também dar umas dicas para quem quiser evitar a teoria da treta:

 

1º Não fundamentar visões do mundo apenas pela televisão e pelo que vê nas notícias. Os critérios televisivos nem sempre são consentâneos com o conhecimento, o saber e a verdade. E mesmo quando o são, estão cheios de vieses, distorções que apanham facilmente os incautos e menos preparados.

2º Ler livros com o cuidado de selecionar bem os autores. Não faz qualquer sentido ler um livro de um autor apenas porque vende muito, mas não possui grande currículo na área em que se propõe escrever e não é, sequer, reconhecido entre pares.

3º Nunca ler apenas um livro ou artigo sobre um determinado problema. Em regra um livro apresenta uma teoria para resolver um problema. E na maioria das vezes essa teoria concorre com milhares de outras teorias rivais e igualmente valiosas para a compreensão do problema

4º Nunca, mas mesmo nunca, fazer interpretações isolando frases, comentários, etc.. há episódios verdadeiramente hilariantes como citações de Bukowski nas redes sociais por pessoas que jamais o citariam se soubessem o que ele escreveu. 

5º Evitar filiações a preto e branco: ou sou a favor ou contra, ou sou do P ou do S.... isto porque quem sabe um pouco de lógica muito elementar sabe fazer negações e não se nega uma teoria universal com outra teoria universal. Isto dá azo a conversas que não são conversas, mas verdadeiros campos de batalha em que o arsenal bélico é apenas o insulto (com maior ou menor pompa, mas gasta-se muito tempo apenas a diminuir os outros e o planeta é grande e cabemos cá todos). 

6º conservar sempre uma boa dose de ceticismo racional. Não é preciso acreditar em todos os aspetos de uma teoria, de uma religião, de uma ideia... e devemos sempre sujeitar as ideias ao crivo da crítica aturada, da análise.

7º Dar muita atenção aos dados. Nem todas as teorias são analisáveis em termos de dados. Muitas delas (como muitas da filosofia) são avaliadas pelo rigor lógico dos argumentos. Mas quando são devemos ter o mínimo cuidado em olhar para eles. Isto mesmo pressupondo que a esmagadora maioria de nós não faz pálida ideia como se interpreta cientificamente dados. Mas hoje em dia existem livros muito intuitivos que nos ajudam a fazê-lo.

 

Finalmente, três sugestões de livros que nos ajudam a melhorar o que aqui foi dito:

 

Julian Baggini, As fronteiras da razão, um cético racional num mundo irracional, Gradiva

Tim Harford, O que os números escondem, 10 regras para decifrar informação e compreender melhor o mundo, Temas e Debates

Hans Rosling, Factfulness, Dez Razões pelas quais estamos Errados acerca do Mundo – E porque as Coisas estão melhor do que Pensamos, Temas e Debates

 

 

*1 – vide por exemplo Steven Pinker, Iluminismo Agora, Em defesa da razão, ciência, humanismo e progresso, Presença (aliás, este livro esteve na base da criação deste blogue) 

 




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