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Como ser um fascista anti-fascista? Altright, marxismo cultural e antifascismo



(Foto minha, Caniço, Ilha da Madeira, 2020)


Usando dos mesmos meios e métodos do fascismo para o combater. É natural que a Direita que se quer renovada (e daí a designação de Alt Right) seja habilidosa na procura dos falsos caminhos da esquerda. E desde há pelo menos uma década que os tem descoberto e denunciado. Trata-se da denúncia das infiltrações da esquerda marxista nos meios intelectuais e da produção dos mecanismos de conhecimento e atividade artística. Tudo começou com a ideologia (sim, também é uma ideologia) pós moderna, na qual ideias de raça, sexo, religião, género, etc.. aparecem como construções sociais. Nega-se o método (contra o método), a ciência e tudo o que seja reflexão, dados e investigação estruturada. Afinal homens e mulheres não passam de construções. Raça é também uma construção. E tudo o que o saber (ciências sociais onde este terreno pode fertilizar-se) tem de fazer é desconstruir mitos sociais. Tudo o que os procure afirmar é fascismo. É a isto que se chama esquerda romântica, pois começou a partir daqui a escalar a montanha que seria também a auto estrada para a alt right. E porquê? Como Jordan Peterson, Douglas Murray ou de uma maneira mais nobre, Roger Scruton, entre muitos outros, notam – e bem – esta infiltração do marxismo cultural enterrou a esquerda num labirinto sem saída. O golpe inicial foi dado por Sokal e Bricmont em Imposturas Intelectuais (edição portuguesa da Gradiva). Desde essa denúncia que as ciências sociais perderam terreno. E até hoje nunca o souberam conquistar. Não se compreende de todo essa estagnação. Os teóricos da nova direita queixam-se da infiltração do marxismo romântico nos meios intelectuais e académicos. Ora, não se vislumbra outra saída para as ciências sociais senão a sua autodefesa. Mas as coisas não têm corrido bem. E estes acontecimentos tem favorecido não apenas os críticos intelectuais (que na minha opinião aproveitaram apenas a ocasião para propagarem também os seus preconceitos de direita, excetuando aqui Sokal e Bricmont que me parecem ter tido verdadeiras motivações científicas), como também favorecem – e muito – a versão populista da política. Isto conjugado com a crise financeira que destapou a corrupção socialista (como se não existisse corrupção liberal) foi o rastilho para os populistas da alt rightaparecerem em força. O que os antifascistas ingénuos não percebem é que é no reforço da identidade científica da sociologia, da história e da filosofia que reside parte do combate. E por isso continuam religiosamente persistentes no poço sem fundo em que se meteram. Exceção seja feita a uma esquerda analítica e pouco interessada nesta bebedeira pósmoderna, como os casos de G. A. Cohen e John Roemer, para citar apenas dois exemplos já com livros traduzidos em Portugal que procuram dar o rigor à esquerda que eventualmente ela poderá merecer. Ainda hoje fui acusado de passar paninhos quentes à direita alternativa exatamente por conceder que a crítica de autores como Scruton ou Murray é bem feita. Não estou a passar paninhos quentes por uma razão especial: não tenho motivações políticas que o justifique. Talvez seja um defeito meu, nem sequer o anoto como pressupondo uma qualquer virtude política. Mas pura e simplesmente a minha posição não me permite trilhar um caminho ideológico. Na verdade, concordo com muita da crítica feita por esses autores. E a ter alguma motivação política, talvez a mais visível e notável, seria a do antifascismo. Na verdade, não me vejo de algum modo a alinhar na perigosa alt right que me parece alinhar muito bem com algumas ideias fascistas. Daí que fosse muito estranho que estivesse motivado a passar paninhos quentes na direita alternativa. Bem, muito menos naquela mais visível, a populista. O que eu considero é que estes antifascistas são ingenuamente fascistas ao negar a ciência, o conhecimento, os dados e ao alinhar na barafunda pós-moderna. São eles e a sua arrogante postura a autoestrada para a crítica da alt right. E nessa ingenuidade eu não poderei alinhar, pois não tenho vontade política de abrir portas a ideias fascistas. 

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