Um dos problemas mais complexos que podemos enfrentar ao nível filosófico e científico é o do processo de formação de crenças. Não de crenças no sentido comum de crença religiosa (embora também envolva estas, mas não estritamente), mas no sentido epistémico (enquanto disposição mental que envolve um sentido proposicional – Ver aqui para mais especificações). Vamos então criar uma experiência de pensamento (uma técnica da filosofia para testar teorias). Vamos imaginar que temos um supercomputador que é capaz de avaliar com rigor se não mentimos acerca das nossas crenças. Assim, se alguém mentisse afirmando que é Benfiquista quando acredita que o Sporting é o seu clube do coração, essa máquina daria um alerta de anomalia nas crenças. Isto é, a máquina avaliaria a convicção com que temos as nossas crenças. Vamos também supor que queremos testar se determinadas motivações alteram as nossas crenças. Dirigimo-nos então a um grupo de pessoas e propomos o seguinte desafio: Vamos oferecer-lhes até ao dia da sua morte uma boa vida, com uma boa casa, com piscina, um bom carro e um rendimento mensal fixo de 15 mil euros. Quem não desejaria? Mas pedimos uma contrapartida. As pessoas que aceitarem têm de formar a convicção de que a terra é plana e, claro, viver como se tal fosse uma verdade estabelecida sem o questionar. Obviamente a crença teria de ser bem vincada, caso contrário o computador perceberia que se está a mentir. O leitor se fosse sujeito a um desafio destes o que faria? Aceitaria viver com uma convicção falsa, passando a acreditar nela como verdadeira sem possibilidade de a questionar, mas a troco da tal vida bastante confortável? Resta pensar o custo que tem viver como se existisse um além ou uma suposta proteção divina suprema como fator compensatório de uma vida terrena. O que pensar?
1. Como chegamos hoje à música Há já alguns anos que os “discos do ano” deixaram de ser, necessariamente, os melhores discos do ano. Isso deve-se às novas formas de descoberta musical. Antes do streaming e da internet massificada, ouvia-se o que cabia numa casa comum de referências: a rádio, alguns jornalistas, amigos próximos. Havia filtros claros. Hoje o filtro é o algoritmo. E, embora nada tenha contra tecnologia, a verdade é que o algoritmo nunca acertou comigo. Já passei pelo Tidal, Spotify e, mais recentemente, Apple Music. Nenhum deles me levou aos discos que realmente acabei por mais apreciar. Continuo a chegar à música através de pesquisa intensa — por vezes quase desesperada — e graças a algumas amizades que resistem nesta troca de referências, como resistem ainda o Ípsilon e, sobretudo, a ultra-resiliente Wire. Este preâmbulo importa porque, como acontece todos os anos, no início de 2026 descobrirei excelentes discos de 2025 que ficaram de fora. O que vem a seguir é simplesm...
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