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Começar pelo fim

Aos 15 anos e durante uma aula de português escrevia no meu caderno em letra artística, “Mother`s Milk”. Não tinha no pensamento uma qualquer imagem de maternidade, mas o quarto disco de uma nova banda rock que chegava dos states, os Red Hot Chilli Peppers. Não me deslumbrei com o disco, mas acolhi-o com bastante simpatia. Na altura as minhas next big thinks (que raramente eram assim tão big) eram quase todas insulares, do Reino Unido. Dos States ecoavam nas minhas orelhas os Sleeping Dogs Wake, os Ministry ou uns novatos Nine Inch Nails. “Unlimited love” é o último capítulo dos RHCP e o efeito em mim continua a ser o mesmo, gostar sem me deslumbrar. Boas guitarras e um baixo distinto de quase tudo o que se pode ouvir no universo rock com este instrumento. Quase só por isso (mas também por algo mais) já valia a pena. 



Comecei pelo fim por iniciar a minha conversa escrita com o quarto registo dos Red Hot Chili Peppers? Nem por isso. O meu começo pelo fim refere-se a outra coisa, à minha caminhada de ontem. E foi durante uns quase 8 km que fui ouvindo o último registo dos RH, embora já o tenha espreitado antes. Nos últimos tempos faço as minhas caminhadas com poadcasts sobre os assuntos que mais gosto, filosofia, ciência, história e, mais recentemente, geopolítica. Mas ontem deixei os poadcasts de lado e atirei-me a algumas sonoridades que fazem parte da história que vou construindo com a música que ouço. Recorrendo a uma palavra muito na moda, a construção da minha “narrativa”. Prefiro aqui chamar apenas de a minha playlist. E que fui ouvindo? “Whe`re in this together” é uma das mais acessíveis composições dos Nine Inche Nails. Consegue estar uns furos abaixo de quase todas de um genial The downward Spiral. Mas volta e meia e regresso a esta canção. Sim, é mesmo uma canção. Nela os NiN imprimem uma descarga elétrica impressionante e fazem dos momentos leves uma tensão entre a eletricidade e o noise, uma das marcas mais evidentes da sua música. Há um refrão forte, e daí que obedeça completamente ao cânone canção. Mas para quem desconhece e está a ler este texto, imagine uma descarga de alta voltagem em crescendo até ao momento do refrão. Uma canção genial a marcar os passos da caminhada. Que não poderia ficar por aí. Vamos ainda mais atrás no tempo e recuperei mais uma dos NiN, menos doce que a anterior, mas ainda assim dentro do limite da canção, o “the hand that feeds”. É menos impactante à primeira audição que a primeira, até porque não tem a formatação toda da canção o que implica metê-la nos ouvidos mais facilmente. Aqui o território é um pouco mais denso e menos imediato. Mas ainda assim também um dos ícones da carreira dos NiN. E, insisto, nenhuma delas, com efeito, se eleva acima do potente “The downward Spiral”, o melhor disco dos NiN. Dos pés à cabeça. 

Como comecei pelo fim já estou com tudo baralhado. Então e começando por onde se começa, pelo início. “Começar pelo início”... habilito-me a levar porradinha. Era melhor estar quieto e não escrever? Claro que não. O início começou com a nova composição dos alemães Kreator. Chama-se “strongest of the strong” (bem vistas as coisas o meu “começar pelo início” até nem parece coisa rara). É uma composição bastante característica. Não morro de amores, mas gosto. Em tempos conheci pessoalmente Mille Petroza que canta, grita, vocifera e toca guitarra. Os Kreator continuam iguais a si mesmos, isto é, sempre competentes no género onde se movem. O momento alto da caminhada foi quando ouvi o novo single dos irlandeses Fountains D C. Para mim são a atual “next big thing” (estão a ver, “começar pelo início”, “strongest of the strong”, “atual next big...”). Chama-se “Skinty fia” e promete. Mais ingredientes eletrónicos e estamos quase em spoken word. Delicio-me com a sua música. 

Há muitos anos que sonho com o Sonar. As edições em Barcelona de há uns anos eram mais robustas. Ou talvez fossem aquelas que me apanharam em grande com a descoberta de composições eletrónicas de gente como Richard D James (Aphex Twin) ou Squarepusher. O Sonar chegou só este ano a Lisboa. Temos muitos festivais com qualidade, mas mainstream. E o Sonar chega cá quando já é, ele mesmo, mainstream. Está bem... chegou. Foi daí que me ocorreu ouvir alguma coisa de Richie Hawtin. Há anos que ouço este nome. E nunca apreciei. Lá ouvi duas do novíssimo “Consumed in key”. E é aquilo que se quer fazer de clássico com beats eletrónicos. Continua a não me seduzir por aí além. Lembrei-me, estaria para aí a raiar os 5km percorridos, de estourar os ouvidos. Duas de seguida: Sex Pistols com “anarchy in the UK” e “revolution action” dos alemães Atari Teenage Riot. Fui pensando como a extrema-direita aproveitou o discurso que parecia apenas fazer sentido no anarquismo libertário. “Isto precisa de motins?”, pensei... “amanhã a europa pode estar perto de eleger uma presidente em frança de extrema-direita”. Ao mesmo tempo pensei como quanto toca ao poder tudo se mistura com demasiada facilidade. E pensei nas imagens de um dos vídeos dos ATR, em Berlin, num motim completamente encenado. “Há muita encenação em tudo isto”. “Que bom que mudei”, “O que pensarão alguns mais radicais que me acompanhavam há uns anos?... Com estes pensamentos e questões refletia o quanto é fácil nesta vida perder a racionalidade e fazer das crenças uma espécie de devoção religiosa, sejam da extrema direita à esquerda e ao anarquismo. 

Fui outra vez aos Red Hot Chili Peppers. Sim, são mainstream. Há lá uma balada. E até o raio da balada está bem feita. É um disco bom. Sem peneiras. Não faltará gente a falar deste disco. Ele é afinal, feito por uma banda do showbiz musical mundial. Quero lá saber. Recomendo. Continuo a não morrer de amores. Não preciso. Pode haver tanta verdade numa frase simples, como num livro completo. Os RHCP merecem o meu tempo. Belos tempos em que os descobri com apenas 15 ou 16 anos, com o “Mother`s Milk” 




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