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Arcade Fire e o estatuto do assim-assim

Nunca morri de amores pela música dos canadianos Arcade Fire. E nunca deixei de os ouvir. Quer dizer, comecei tarde, pois não liguei grande coisa a Funeral, o disco de estreia. Depois, porque alguém meu conhecido lá foi insistindo comecei a ouvir e, devagarinho comecei a gostar. Mas isto jamais aconteceu nos discos seguintes da banda. Afinal, deixou de ser uma música exigente para lhe captar os pormenores e os contornos. Ou seja, os AF são para mim uma banda assim-assim o que é suficiente para os ouvir. Já comecei lentamente a espreitar o novo disco. E já percebi que há material suficiente para que os AF continuem para mim com o estatuto de assim-assim. Mas também é verdade que estou sempre a ver quando me desiludem e tal ainda não aconteceu. Por isso “we” é o melhor disco assim-assim que ouvi deste ano até agora. 

A fruta da época (fora dela)

Como vai sendo hábito aqui apareço novamente para fazer um levantamento da criação musical dos primeiros meses do ano. E já se publicou o suficiente para fazer um   best of   anual. Vamos lá diretos ao osso.    Kae Tempest “The line is a curve”   Lembram-se de Anne Clark? Ela não cantava nem sequer se destacava pelos dotes vocais. No entanto era uma interprete de palavras como há poucas. A música era intensa e deprimida e a voz de Clark aumentava e de que maneira essa intensidade negra. É para esse universo que a música de Kae Tempest remete.  As palavras também são muitas vezes políticas e ácidas, o que nos transporta até ao universo do texto. Mas tal como no trabalho de Clark, também no de Tempest é possível apreciar a obra sem estar sempre atentos ao texto. Porque a voz também acaba por se transformar num instrumento, uma estratégia de toda a maquinaria spoken word.    Fountains D C “Skinty FIA” Este é o terceiro album dos Rimbaud, perdão,...

Começar pelo fim

Aos 15 anos e durante uma aula de português escrevia no meu caderno em letra artística, “ Mother`s Milk ”. Não tinha no pensamento uma qualquer imagem de maternidade, mas o quarto disco de uma nova banda rock que chegava dos states, os Red Hot Chilli Peppers. Não me deslumbrei com o disco, mas acolhi-o com bastante simpatia. Na altura as minhas   next big thinks   (que raramente eram assim tão big) eram quase todas insulares, do Reino Unido. Dos States ecoavam nas minhas orelhas os Sleeping Dogs Wake, os Ministry ou uns novatos Nine Inch Nails. “ Unlimited love ” é o último capítulo dos RHCP e o efeito em mim continua a ser o mesmo, gostar sem me deslumbrar. Boas guitarras e um baixo distinto de quase tudo o que se pode ouvir no universo rock com este instrumento. Quase só por isso (mas também por algo mais) já valia a pena.  Comecei pelo fim por iniciar a minha conversa escrita com o quarto registo dos Red Hot Chili Peppers? Nem por isso. O meu começo pelo fim refere-se ...

Discos 2021 – um ano cheio de mesmidade sonora

Já é um lugar-comum que os anos passam a música surpreende-me menos. Mas mesmo assim não perdi o jeito de pesquisar sempre o que há de novo em busca do tal disco que traz a novidade das novidades. Bem, a verdade é que um disco para ser bom não precisa de ser a  next big thing . Há muitas maneiras de perceber que um disco é bom: porque tem boas composições, porque nos dá prazer, porque nos apetece, etc... Existe toda uma variação teórica em volta da arte na filosofia da arte. Mas quando me dou conta dos discos do ano, tarefa que mantenho talvez desde os 16 ou 17 anos de idade, uso um qualquer critério. E nos últimos anos, até pela transformação da maneira como se consome música, os discos do ano são aqueles que de uma maneira ou de outra ouvi e me disseram algo de interessante. Até mais ou menos ao 10 são discos que me fizeram boa companhia e me proporcionaram largas horas de prazer. São os discos que melhor descobri ou que mais impacto tiveram nos meus tímpanos. Por isso, aí segue ...