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Mensagens

Daughters

Na lista que elaborei dos melhores discos do ano passado, incluí o dos norte americanos, Daughters, You Won't Get What You Want . Na altura o disco pareceu-me suficientemente interessante para constar do meu best of do ano, mas não me parecia um disco especial. A produção soava borrada o que estragava a sonoridade. Entretanto, mais tarde, peguei de novo no disco e comecei a vislumbrar-lhe todo o poder musical que ali habita. Os bons discos são muitas vezes assim, exigem uma relação que leva o seu tempo até se estabelecer alguma solidez, até que se compreenda minimamente o seu íntimo. Há discos bons sem grande intimidade. Mas não é este o caso. Os Daughters conseguiram uma obra notável, uma espécie de cruzamento entre os melhores Swans de Michael Gira, a depressão de Ian Curtis nos Joy Division e uma energia mais próxima do punk. Um amigo já me tinha avisado do que aqui havia e, lá está, na altura não me tinha ainda entusiasmado com a peça. Som duro, muito forte mesmo. 

Never mind the bollocks! Sid, uma obra de arte?

Num destes dias participei numa “conversa” de facebook na qual se discutia o valor artístico da figura de Sid Vicious. Não defendi uma posição relativamente ao assunto. Antes preferi “destruir” questionando uma outra teoria, a que defendia que Vicious não teria passado de um pobre coitado, a fazer tristes figuras e que, em via disso, nunca poderia ter qualquer valor artístico. E questionei num sentido apenas: para termos uma qualquer consideração sobre se Vicious é ou não um artista, ou ele próprio, feito obra de arte, temos de considerar pelo menos alguns critérios sobre que propriedades mantém uma obra para ser distinta das outras e, então, ser considerada de arte. Ora, nas discussões comuns é aqui que  a porca torce o rabo , pois em regra as pessoas nunca pensaram em tais coisas e na maioria das vezes nem sequer pensaram que coisas como “propriedades da arte” podem – e até devem – ser pensadas e discutidas.  Mesmo assim, algumas das intuições que muitas vezes temos sob...

Ciência

Uma das coisas mais estúpidas que conheci nas escolas e universidades é a divisão de departamentos. Nas escolas é comum a divisão entre ciências exatas e ciências humanas. Ora isto sugere que há ciências que são humanas e outras não são humanas (devem ser ciência feita pelos peixes para os peixes) e as que são humanas não são exatas, são, diria, inexactas. Ora se o senso comum pouco compreende do mecanismo das ciências o mesmo não seria de esperar dos lugares onde ela mais se divulga, as escolas. E este erro (e outros) permanece alegremente sem qualquer tentativa de correção.

Definir progresso é fácil

Steven Pinker, no seu mais recente livro, já traduzido para português, O iluminismo agora, traduz progresso desta forma ( e que julgo ser uma definição bastante consensual): a abundância é melhor que a pobreza. A vida é melhor que a morte. A saúde é melhor que a doença. A subsistência é melhor que a fome. A liberdade é melhor que a tirania. A igualdade de direitos  é melhor do que a intolerância e a discriminação. A literacia é melhor que a iliteracia. O conhecimento é melhor que a ignorância. . a inteligência é melhor que a lentidão de raciocínio. A felicidade é melhor que a miséria. As oportunidades para desfrutarmos da família, dos amigos, da cultura e da natureza são melhores do que o trabalho excessivo e a monotonia. Sendo todas estas coisas mensuráveis e desde que aumentem ao longo do tempo então podemos falar de progresso. 

Censura e liberdade de expressão

(Foto tirada por mim no Museu da Armada, Lee Invalides, Paris, 2018 ) O problema é o de sabermos se pode existir algum limite à  liberdade de expressão. Podemos limitar a liberdade de alguém e exprimir o seu pensamento ainda que o mesmo possa ser extremo ou muito pouco consensual? O argumento do filósofo inglês Stuart Mill apresentado no livro  Sobre a Liberdade  é que o incitamento à violência é o limite a partir do qual defender a liberdade de expressão deixa de ser incompatível com limitar alguém de exprimir o seu pensamento. Pelo menos, pensamos, um incitamento direto já que indiretamente podemos sempre defender que o discurso X motivou uma ação violenta. A vantagem do argumento de Mill é que pela primeira vez esboçou uma forma de compreendermos como é que podemos defender a liberdade de expressão, mas ao mesmo tempo de modo bastante racional não ultrapassar determinados limites que consideramos, à partida, imorais, como a violência sem justificação plausível....

A vida com smartphones

Quando os telefones já eram inteligentes mas praticamente só davam para telefonar (eu sei, eu sei, hoje isto não soa nada a smartphone), eu não lhes ligava peva. Um pouco mais tarde, quando começaram a funcionar como máquinas fotográficas aceitáveis, gps, etc é que passei a dar-lhes alguma atenção. O meu primeiro smartphone a sério foi o pequeno HTC wildfire. Era pequeno e já com funcionalidades atraentes. Mas quando o comprei já tinha algum tempo de mercado, o que o tornou rapidamente absoleto nas minhas mãos. Os topos de gama eram e ainda são demasiado caros para mim, pelo menos até ao dia em que comprar um e depois não conseguir dar um passo para trás. Passados uns meses de ter comprado o wildfire a empresa espanhola BQ lançou o primeiro smartphone lowcost a chegar às lojas físicas em Portugal, um dispositivo com boas características  e a um preço bastante apetecível para o que oferecia. Tive pelo menos dois BQ e a partir daí já tive alguns smartphones. Provavelmente o m...

Os melhores discos de 2018

Para ouvir no Spotify o meu Best Of: Os meus melhores de 2018 De novo ( e o problema devo ser eu mesmo) 2018 não me revelou grandes surpresas musicais. Mas a verdade é que penso que tal se deve mais ao modo como nos nossos dias passei a consumir música. Se há uma década atrás ouvia menos discos e o tempo que dedicava a cada um dele permitia um envolvimento afetivo com cada peça consumida, hoje em dia disponho de uma discografia que nem todo o tempo que me resta de vida se eu vivesse até aos 100 anos me daria para consumir. Por isso não estranho que o Spotify tenha indicado uma canção de Father John Misty como a canção que mais rodou no meu Spotify em 2018. E está longe de ser uma canção deslumbrante, apesar de ser bastante boa. A explicação é simples: trata-se de um algoritmo a funcionar. Provavelmente ouvi essa melodia fácil durante algumas semanas e pela manhã enquanto me vestia ou conduzia para o trabalho. Mas está longe de ser a melhor composição que ouvi em 2018. Por out...