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Mensagens

O que ouvi em 2019

Porque acho que o rock and rol ainda tem muito para dar, este ano foi de regresso a velhas matrizes do rock. E quem sofreu foi o hip hop.  Depois de algum entusiasmo inicial, pouco me restou de tempo para lhe dedicar maior atenção. As surpresas maiores chegaram da Irlanda. O tom urbano depressivo de uma Manchester, finais de setenta e inícios de oitenta regressaram, qual ressurreição de Ian Curtis. “ Dogrel ” dos jovens  Fountains DC  foi o disco que mais gostei de ouvir ao longo do ano. É um disco forte, com canções viciantes, cheias de poesia. Está lá o manual todo dos Joy Division que também foi o manual do Rock Rendez Vous. É assim que chega à memória aqueles  lálálás  meios desnorteados  a funcionar como as luzinhas numa árvore de natal. Mas também há lá muito da música popular da Irlanda, talvez como o foco apontado aos Pogues do agora velhinho Shane McGoan. Desengane-se no entanto quem pense que se trata de um mero revivalismo. Diria mesmo ...

A filosofia é um estudo a priori porque é de prioridades

Li esta frase escrita num teste por um miúdo de 15 anos de idade: "A filosofia é um estudo a priori porque é de prioridades". Ora bem, isto pode refletir falta de estudo. Mas também qualquer aluno "marrão" podia saber isto sem, no entanto, ter grande capacidade de abstração. Para tal basta decorar. Mas é exatamente este tipo de respostas que prototipiza o aluno médio que chega ao 10º ano: ou é aquele que decora, ou então aquele que não decora. Como é que sei isto? Basta colocar num teste uma questão que exige maior abstração e compreensão. Com 15 anos poucos lá chegam. Se não chegam são chumbados e assim perdem a oportunidade de algum dia lá chegarem. É isto que se pretende? Obviamente ninguém de bom senso aceita tal ideia. Por isso mesmo há anos que defendo que os programas de ensino estão mal desenhados. Eles estão desenhados desta forma: para cada 10 páginas de conteúdos, apresentam meia página de estratégias. Ora, eu proponho que sejam desenhados exatamente ao ...

Incidentes dos profissionais de filosofia.

Se num grupo de pessoas, estiver lá um médico e alguém tossir e o médico disser que talvez deva fazer um exame pois essa tosse pode revelar alergias, alguém se irá lembrar que o médico tem a mania que sabe mais que os outros? Se nesse mesmo grupo estiver um mecânico e o carro de alguém não pegar à primeira e o mecânico disser que talvez seja a bateria a ficar fraca, alguém se vai lembrar de dizer que o mecânico tem a mania que sabe mais que os outros? Se estiver um preparador físico e alguém ao se levantar acusar uma dor de costas e o preparador disser que talvez precise de reforçar a força muscular, alguém se vai lembrar de dizer que o preparador tem a mania que sabe mais que as outras pessoas? Então porquê que se estiver um filósofo, e se alguém falar de arte, deuses, justiça, riqueza, etc... e o filósofo emitir um parecer, haverá sempre alguém que diz ou pensa que o filósofo tem a mania que sabe mais que os outros? É que isto não é apenas mania. É o que é. É ignorância de quem não ...

Dar uma prosa ao cinema

“ Vem comigo dar uma prosa ao mar ” diz João, o rocheiro, personagem principal do último filme de Luís Miguel Jardim, em estreia no dia 17 deste mês no Casino da Madeira. Mas o menino Diogo, pragmático e ambicioso não compreende as palavras de João e por mais que se esforce não consegue “ dar a prosa ao mar ”. É aí que João explica ao menino que dar uma prosa ao mar é saber ouvi-lo com o pensamento. Nas suas dissertações sonhadoras João refere que a vida é limitada como limitada é a ilha. Limitada por mar. E limitada pela pobreza e pela dureza. No seu último longa metragem, Luís Miguel consegue dar uma prosa ao cinema ao saber fazê-lo com imaginação. Na sessão de apresentação de  Cartas de Fora,  no  dia 10 de Setembro no Instituto do Vinho da Madeira, João Augusto Abreu, o ator principal, referiu que no cinema cabem muitas artes, desde a fotografia, a música (da qual também é o seu autor neste filme), a dança,... Talvez por isso os filmes de Luís Miguel não deixa...

Hooligans políticos

Jason Brennan em Contra a democracia (ed. Portuguesa da Gradiva) categoriza o comportamento político nas democracias contemporâneas. Claro que as categorias podiam ser outras, uma opção sempre em aberto. Segundo Brennan, há 3 principais tipos de comportamentos: os Hobbits, Hooligans e Vulcano. Os primeiros, os Hobbits são, resumidamente, os politicamente ignorantes. Os segundos são informados, mas seguem a cartilha e são incapazes de sair fora dela. Os vulcanos são capazes de pensar a política com as ferramentas da ciência e do pensamento crítico. E segundo Brennan apenas os últimos são capazes de uma avaliação política racional. São este tipo de eleitores, os Vulcano, que votam conscientemente e de maneira prudente e racional. Claro que esta divisão serve para Brennan mostrar o seu principal argumento, o de que é profundamente errado que os Vulcano estejam à mercê dos votos ignorantes tanto dos Hobbits como dos Hooligans e, em via disso, defende Brennan que nem todos deveriam ter ...

Daughters

Na lista que elaborei dos melhores discos do ano passado, incluí o dos norte americanos, Daughters, You Won't Get What You Want . Na altura o disco pareceu-me suficientemente interessante para constar do meu best of do ano, mas não me parecia um disco especial. A produção soava borrada o que estragava a sonoridade. Entretanto, mais tarde, peguei de novo no disco e comecei a vislumbrar-lhe todo o poder musical que ali habita. Os bons discos são muitas vezes assim, exigem uma relação que leva o seu tempo até se estabelecer alguma solidez, até que se compreenda minimamente o seu íntimo. Há discos bons sem grande intimidade. Mas não é este o caso. Os Daughters conseguiram uma obra notável, uma espécie de cruzamento entre os melhores Swans de Michael Gira, a depressão de Ian Curtis nos Joy Division e uma energia mais próxima do punk. Um amigo já me tinha avisado do que aqui havia e, lá está, na altura não me tinha ainda entusiasmado com a peça. Som duro, muito forte mesmo. 

Never mind the bollocks! Sid, uma obra de arte?

Num destes dias participei numa “conversa” de facebook na qual se discutia o valor artístico da figura de Sid Vicious. Não defendi uma posição relativamente ao assunto. Antes preferi “destruir” questionando uma outra teoria, a que defendia que Vicious não teria passado de um pobre coitado, a fazer tristes figuras e que, em via disso, nunca poderia ter qualquer valor artístico. E questionei num sentido apenas: para termos uma qualquer consideração sobre se Vicious é ou não um artista, ou ele próprio, feito obra de arte, temos de considerar pelo menos alguns critérios sobre que propriedades mantém uma obra para ser distinta das outras e, então, ser considerada de arte. Ora, nas discussões comuns é aqui que  a porca torce o rabo , pois em regra as pessoas nunca pensaram em tais coisas e na maioria das vezes nem sequer pensaram que coisas como “propriedades da arte” podem – e até devem – ser pensadas e discutidas.  Mesmo assim, algumas das intuições que muitas vezes temos sob...