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Mensagens

Álbuns 2022

Como sempre publico a lista dos meus discos mais ouvidos em 2022. Desta vez procurei que pelo menos os 12 primeiros fossem discos que realmente gostei. Daí para baixo que um disco conste na lista não significa necessariamente que gostei muito, mas pelo menos que passei algum do meu tempo com esse disco e lhe reconheço algumas qualidades artísticas. Todos os anos procuro ouvir muita música nova e com a minha idade já não existem muitas surpresas nos territórios onde me movo, mas ainda assim há muita qualidade. E obviamente esta lista não expressa tudo quanto de bom se publicou durante o ano até porque muitos dos discos só os vou descobrir a partir de outras listas. Há uns anos era mais fácil elaborar uma lista dado que as audições não eram muito dispersas. Os filtros eram mais ou menos os mesmos. Hoje em dia há uma enorme dispersão com dezenas de publicações interessantes que desapareceram. Ainda assim vou seguindo as sugestões da espanhola Factory, que ainda resiste ou da inglesa The W...

Proximidade e moralidade

(foto privada do autor do blogue) A ideia de se criticar negativamente alguém com bastante distância física e social parece pacífica. Podemos, pois, criticar sem mácula um escritor americano se formos portugueses. Nunca nos vamos cruzar com ele na rua, nem temos de lhe dizer bom dia. Não falamos sequer a mesma língua e como provavelmente o escritor nem lê português será muito difícil algum dia saber o que escrevemos sobre o seu trabalho. Também parece pacífica a ideia de criticarmos positivamente o trabalho de um colega do lado. Ou seja, um escritor que seja nosso colega de trabalho não implica problemas de maior se falarmos bem do trabalho dele. Mas vamos agora baralhar um pouco as coisas. E se criticarmos negativamente o trabalho de alguém que nos é fisicamente próximo? Por regra isso vai dar sarilho, desamiganços físicos e virtuais, etc.. mas coisa boa não acarreta. O mesmo trabalho não implica problemas se for criticável a uma grande distância física e social, mas implica problemas...

Investigadores noturnos

  Quando comecei a ensinar filosofia dei-me conta que muitas pessoas têm uma ideia bastante errada do que é e faz a filosofia. Mas ao mesmo tempo percebi que não tinham nem tempo nem paciência para estar paradas uma hora a ouvir-me explicar tudo o que eu sabia e tinha aprendido. Assim tive de engendrar maneiras de explicar o que é a filosofia sem ao mesmo tempo fazer as pessoas perder muito tempo. Teria de ser: claro, definir em poucas palavras e apresentar sempre boas razões. Fui treinando esta técnica que passou por fases diferentes e tem evoluído ao longo dos anos. Mas talvez o momento mais feliz foi quando um casal em que ambos tinham tido uma péssima experiência com a filosofia e volvidos uns minutos ouvi isto: “ Ah, mas se me tivessem explicado assim eu iria gostar ”. Este é um desafio que tenho tido sempre: ser o mais claro possível e só me alongar quando estritamente necessário ou então em contextos formais mais próprios ao desenvolvimento, como são os de algumas aulas, for...

Não se pode confundir.

Esta fórmula aparece muitas vezes na argumentação e penso que numa boa parte acaba por ser falaciosa. Não passa de um espantalho. Claro que não devemos confundir o rabo das calças com o rabo da pessoa que as veste, mas na verdade o rabo de um tem de se ajustar ao rabo de outro e por isso é perfeitamente possível falar do rabo das calças considerando o rabo de quem as veste. Por isso afirmamos coisas como “ essas calças ficam-te mesmo bem” ou “ essas calças não te assentam muito bem ”. Ainda ontem via na TV mais casos de abusos sexuais ocultados dentro da igreja católica. A igreja católica silenciou o holocausto. As cruzadas cristãs mataram mais que todas as outras guerras juntas. Ah bem... diria o nosso interlocutor: “ mas não se pode confundir a igreja com o cristianismo ”. Pois eu acho que tal como o rabo das calças está para o rabo que as veste, a igreja também está para o cristianismo. Ah bem, continuará o interlocutor: “ mas as ideias de cristo não são as ideias da igreja ”. Pois...

Arcade Fire e o estatuto do assim-assim

Nunca morri de amores pela música dos canadianos Arcade Fire. E nunca deixei de os ouvir. Quer dizer, comecei tarde, pois não liguei grande coisa a Funeral, o disco de estreia. Depois, porque alguém meu conhecido lá foi insistindo comecei a ouvir e, devagarinho comecei a gostar. Mas isto jamais aconteceu nos discos seguintes da banda. Afinal, deixou de ser uma música exigente para lhe captar os pormenores e os contornos. Ou seja, os AF são para mim uma banda assim-assim o que é suficiente para os ouvir. Já comecei lentamente a espreitar o novo disco. E já percebi que há material suficiente para que os AF continuem para mim com o estatuto de assim-assim. Mas também é verdade que estou sempre a ver quando me desiludem e tal ainda não aconteceu. Por isso “we” é o melhor disco assim-assim que ouvi deste ano até agora. 

A fruta da época (fora dela)

Como vai sendo hábito aqui apareço novamente para fazer um levantamento da criação musical dos primeiros meses do ano. E já se publicou o suficiente para fazer um   best of   anual. Vamos lá diretos ao osso.    Kae Tempest “The line is a curve”   Lembram-se de Anne Clark? Ela não cantava nem sequer se destacava pelos dotes vocais. No entanto era uma interprete de palavras como há poucas. A música era intensa e deprimida e a voz de Clark aumentava e de que maneira essa intensidade negra. É para esse universo que a música de Kae Tempest remete.  As palavras também são muitas vezes políticas e ácidas, o que nos transporta até ao universo do texto. Mas tal como no trabalho de Clark, também no de Tempest é possível apreciar a obra sem estar sempre atentos ao texto. Porque a voz também acaba por se transformar num instrumento, uma estratégia de toda a maquinaria spoken word.    Fountains D C “Skinty FIA” Este é o terceiro album dos Rimbaud, perdão,...