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Mensagens

Nós e Eles

«NÓS e ELES»; uma simples formulação, mas é responsável pela esmagadora maioria das distorções cognitivas na compreensão do modo como o mundo funciona e o que ele é: os pretos e os brancos, a direita e a esquerda, os ocidentais e os orientais, os muçulmanos e os cristãos, os do FCP e os do SLB. Pensar com esta formulação distorce e acaba sempre num modelo de pensamento ignorante, fechado e distorcido. É um dos vieses cognitivo mais frequente e uma estrondosa formulação igual a um falso dilema. O mundo não é assim, não existe no mundo essa dicotomia. Mas claro que ela é popular porque é pouco exigente e satisfaz a nossa necessidade de justificação das nossas crenças. Um dos primeiros passos a dar para evitar uma distorção gigantesca como esta e para se começar a pensar criticamente é abandonar desde logo esta falsa dicotomia e deixar de pensar com ela. Esta é uma das lições mais básicas do pensamento crítico. Passem a analisar o mundo e o que nele se passa sem esta dicotomia. Depois ...

E quando pensamos que tudo sabemos sem saber que nada sabemos?

Numa recente reportagem da RTP dizia o físico português do Instituto Superior Técnico, Vitor Cardoso que sabe que as leis da matemática são a chave da compreensão natureza mas que não sabe explicar por que razão é assim. Se estivesse um bom filósofo por perto, de certeza que ensaiaria uma teoria que pudesse explicar. Isto porque o problema em si não é da competência da física, mas da filosofia da física ou da mais abrangente filosofia da ciência e porque depois o problema tem milhares de outras conexões com áreas que eventualmente não são terreno da filosofia.  O governo português anunciou para 2020 a administração de mais duas vacinas no plano nacional de vacinação. E rapidamente li nas redes sociais comentários nada abonatórios anti vacinação e com citações de estudos a acompanhar os comentários que parecem apoiar a ideia anti vacinação. Isto mesmo contrariando os números de vidas salvas de crianças desde que existe algo como uma vacina.  Quando queremos compreender o...

Roupa, cultura e atitude

Há pouco tempo abriu uma loja da marca de  streetwear  norte americana Vans num dos shoppings da ilha da Madeira. Entrei na loja e estava a rodar uma música dos Stooges. Pelo meio ouvi PIL, Sex Pistols, Stones dos mais antigos e outras coisas mais bem interessantes. Uma das funcionárias da loja perguntou-me se precisava de alguma ajuda, ao que respondi que não ia comprar nada, estava apenas a ver pois gostava da marca e do que lhe está associado. Conversamos um pouco e acabei por conhecer mais um bocado da história da marca norte americana. Mas o que retive e que interessa para este post foi esta explicação. Disse então a minha interlocutora: as marcas impõem a moda às pessoas. As pessoas compram o que a indústria quer que as pessoas comprem. A Vans já passou por momentos difíceis, mas é uma marca que se distingue pois não impõe às pessoas o que a marca quer vender, mas vai buscar às pessoas inspiração para os seus modelos. Exato! É mesmo isto que me faz gostar da marca q...

Vis a Vis, o que é ser uma pessoa?

Como não disponho de muito tempo e não aprecio obras cujo fim é apenas o entretenimento, gosto de ir direto às obras que tenham algum outro conteúdo para além do entretenimento. Nada contra o entretenimento, mas não aprecio. Aliás, não podia apreciar arte e ao mesmo tempo colocar de parte o entretenimento uma vez que a arte acaba também por ter quase sempre esse elemento presente (isto é discutível). E não há mal algum nisso. O que estou a explicar é que não aprecio o entretenimento como um fim em si mesmo. Talvez por isso tenha gostado da Casa de Papel, a série espanhola. Entretém, tem as doses suficientes de violência para nos deixar as emoções à flor da pele depois de um dia intenso de trabalho, mas ao mesmo tempo é uma reflexão sobre o modelo capitalista atual. E os espanhóis, também influenciados pelas tradições dos franceses e pela sua própria história (até a mais recente e principalmente essa) são muito bons a fazer do entretenimento uma ferramenta de reflexão sobre o mundo s...

Ora bolas, sou professor e não sei!!!

Um dos aspetos das teorias que ensino que mais rodas me dá à cabeça é que tenho de ter um entendimento mínimo da sua relevância, isto é, do que essas teorias estudam e da sua relação com o mundo, com outras teorias, conteúdos, etc. Sem este aspeto razoavelmente compreendido (ainda que sujeito a ilusões, erros, enganos, etc), parece-me que estou a militar no vazio. Depois de compreender para mim tenho de fazer um esforço ainda maior: ajudar os alunos a compreender. Muitas das vezes a maneira de ensinar ou partilhar o conhecimento de uma teoria é pedir para tentar avaliar os seus aspetos críticos. O que nem sempre é fácil. Eu não posso pedir aos alunos de 16 anos que me mostrem como a teoria de Popper é uma reação ao marxismo ou às teorias de Adler (a menos que passasse algumas horas a explicá-las, o que seria talvez proveitoso nem que fosse para mostrar que algumas teorias não precisam de ser científicas para serem boas teorias, como a própria teoria de Popper). Mas posso, por exempl...

O que ouvi em 2019

Porque acho que o rock and rol ainda tem muito para dar, este ano foi de regresso a velhas matrizes do rock. E quem sofreu foi o hip hop.  Depois de algum entusiasmo inicial, pouco me restou de tempo para lhe dedicar maior atenção. As surpresas maiores chegaram da Irlanda. O tom urbano depressivo de uma Manchester, finais de setenta e inícios de oitenta regressaram, qual ressurreição de Ian Curtis. “ Dogrel ” dos jovens  Fountains DC  foi o disco que mais gostei de ouvir ao longo do ano. É um disco forte, com canções viciantes, cheias de poesia. Está lá o manual todo dos Joy Division que também foi o manual do Rock Rendez Vous. É assim que chega à memória aqueles  lálálás  meios desnorteados  a funcionar como as luzinhas numa árvore de natal. Mas também há lá muito da música popular da Irlanda, talvez como o foco apontado aos Pogues do agora velhinho Shane McGoan. Desengane-se no entanto quem pense que se trata de um mero revivalismo. Diria mesmo ...

A filosofia é um estudo a priori porque é de prioridades

Li esta frase escrita num teste por um miúdo de 15 anos de idade: "A filosofia é um estudo a priori porque é de prioridades". Ora bem, isto pode refletir falta de estudo. Mas também qualquer aluno "marrão" podia saber isto sem, no entanto, ter grande capacidade de abstração. Para tal basta decorar. Mas é exatamente este tipo de respostas que prototipiza o aluno médio que chega ao 10º ano: ou é aquele que decora, ou então aquele que não decora. Como é que sei isto? Basta colocar num teste uma questão que exige maior abstração e compreensão. Com 15 anos poucos lá chegam. Se não chegam são chumbados e assim perdem a oportunidade de algum dia lá chegarem. É isto que se pretende? Obviamente ninguém de bom senso aceita tal ideia. Por isso mesmo há anos que defendo que os programas de ensino estão mal desenhados. Eles estão desenhados desta forma: para cada 10 páginas de conteúdos, apresentam meia página de estratégias. Ora, eu proponho que sejam desenhados exatamente ao ...