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Mensagens

Das dificuldades profissionais para ensinar a pensar

uma das grandes dificuldades que diagnostico nos alunos do 10º ano é no desenvolvimento de uma resposta de desenvolvimento dado que a sua capacidade argumentativa é ainda bastante rudimentar. Nada anormal para miúdos de 15 anos. A ideia é que as aulas de filosofia possibilitam esse desenvolvimento. E possibilitam? A resposta é NÃO. Quais as razões? Há alunos que trazem esta competência razoavelmente desenvolvida de casa ou até pelo seu percurso escolar mais favorável à aprendizagem (turmas boas, escolas particulares com seleção de alunos, etc), mas a maioria não. Ora quem paga a fatura mais alta são os alunos provenientes de meios familiares e contextos sociais que não favorecem o desenvolvimento desta competência de raciocínio crítico. Possivelmente não têm a oportunidade de discutir em casa, de viajar, de contactar com arte, livros, etc. E as aulas deveriam possibilitar a estes alunos o desenvolvimento desta ferramenta. Mas raramente o fazem. O que a escola faz é atirar estes alun...

Nós e Eles

«NÓS e ELES»; uma simples formulação, mas é responsável pela esmagadora maioria das distorções cognitivas na compreensão do modo como o mundo funciona e o que ele é: os pretos e os brancos, a direita e a esquerda, os ocidentais e os orientais, os muçulmanos e os cristãos, os do FCP e os do SLB. Pensar com esta formulação distorce e acaba sempre num modelo de pensamento ignorante, fechado e distorcido. É um dos vieses cognitivo mais frequente e uma estrondosa formulação igual a um falso dilema. O mundo não é assim, não existe no mundo essa dicotomia. Mas claro que ela é popular porque é pouco exigente e satisfaz a nossa necessidade de justificação das nossas crenças. Um dos primeiros passos a dar para evitar uma distorção gigantesca como esta e para se começar a pensar criticamente é abandonar desde logo esta falsa dicotomia e deixar de pensar com ela. Esta é uma das lições mais básicas do pensamento crítico. Passem a analisar o mundo e o que nele se passa sem esta dicotomia. Depois ...

E quando pensamos que tudo sabemos sem saber que nada sabemos?

Numa recente reportagem da RTP dizia o físico português do Instituto Superior Técnico, Vitor Cardoso que sabe que as leis da matemática são a chave da compreensão natureza mas que não sabe explicar por que razão é assim. Se estivesse um bom filósofo por perto, de certeza que ensaiaria uma teoria que pudesse explicar. Isto porque o problema em si não é da competência da física, mas da filosofia da física ou da mais abrangente filosofia da ciência e porque depois o problema tem milhares de outras conexões com áreas que eventualmente não são terreno da filosofia.  O governo português anunciou para 2020 a administração de mais duas vacinas no plano nacional de vacinação. E rapidamente li nas redes sociais comentários nada abonatórios anti vacinação e com citações de estudos a acompanhar os comentários que parecem apoiar a ideia anti vacinação. Isto mesmo contrariando os números de vidas salvas de crianças desde que existe algo como uma vacina.  Quando queremos compreender o...

Roupa, cultura e atitude

Há pouco tempo abriu uma loja da marca de  streetwear  norte americana Vans num dos shoppings da ilha da Madeira. Entrei na loja e estava a rodar uma música dos Stooges. Pelo meio ouvi PIL, Sex Pistols, Stones dos mais antigos e outras coisas mais bem interessantes. Uma das funcionárias da loja perguntou-me se precisava de alguma ajuda, ao que respondi que não ia comprar nada, estava apenas a ver pois gostava da marca e do que lhe está associado. Conversamos um pouco e acabei por conhecer mais um bocado da história da marca norte americana. Mas o que retive e que interessa para este post foi esta explicação. Disse então a minha interlocutora: as marcas impõem a moda às pessoas. As pessoas compram o que a indústria quer que as pessoas comprem. A Vans já passou por momentos difíceis, mas é uma marca que se distingue pois não impõe às pessoas o que a marca quer vender, mas vai buscar às pessoas inspiração para os seus modelos. Exato! É mesmo isto que me faz gostar da marca q...

Vis a Vis, o que é ser uma pessoa?

Como não disponho de muito tempo e não aprecio obras cujo fim é apenas o entretenimento, gosto de ir direto às obras que tenham algum outro conteúdo para além do entretenimento. Nada contra o entretenimento, mas não aprecio. Aliás, não podia apreciar arte e ao mesmo tempo colocar de parte o entretenimento uma vez que a arte acaba também por ter quase sempre esse elemento presente (isto é discutível). E não há mal algum nisso. O que estou a explicar é que não aprecio o entretenimento como um fim em si mesmo. Talvez por isso tenha gostado da Casa de Papel, a série espanhola. Entretém, tem as doses suficientes de violência para nos deixar as emoções à flor da pele depois de um dia intenso de trabalho, mas ao mesmo tempo é uma reflexão sobre o modelo capitalista atual. E os espanhóis, também influenciados pelas tradições dos franceses e pela sua própria história (até a mais recente e principalmente essa) são muito bons a fazer do entretenimento uma ferramenta de reflexão sobre o mundo s...

Ora bolas, sou professor e não sei!!!

Um dos aspetos das teorias que ensino que mais rodas me dá à cabeça é que tenho de ter um entendimento mínimo da sua relevância, isto é, do que essas teorias estudam e da sua relação com o mundo, com outras teorias, conteúdos, etc. Sem este aspeto razoavelmente compreendido (ainda que sujeito a ilusões, erros, enganos, etc), parece-me que estou a militar no vazio. Depois de compreender para mim tenho de fazer um esforço ainda maior: ajudar os alunos a compreender. Muitas das vezes a maneira de ensinar ou partilhar o conhecimento de uma teoria é pedir para tentar avaliar os seus aspetos críticos. O que nem sempre é fácil. Eu não posso pedir aos alunos de 16 anos que me mostrem como a teoria de Popper é uma reação ao marxismo ou às teorias de Adler (a menos que passasse algumas horas a explicá-las, o que seria talvez proveitoso nem que fosse para mostrar que algumas teorias não precisam de ser científicas para serem boas teorias, como a própria teoria de Popper). Mas posso, por exempl...

O que ouvi em 2019

Porque acho que o rock and rol ainda tem muito para dar, este ano foi de regresso a velhas matrizes do rock. E quem sofreu foi o hip hop.  Depois de algum entusiasmo inicial, pouco me restou de tempo para lhe dedicar maior atenção. As surpresas maiores chegaram da Irlanda. O tom urbano depressivo de uma Manchester, finais de setenta e inícios de oitenta regressaram, qual ressurreição de Ian Curtis. “ Dogrel ” dos jovens  Fountains DC  foi o disco que mais gostei de ouvir ao longo do ano. É um disco forte, com canções viciantes, cheias de poesia. Está lá o manual todo dos Joy Division que também foi o manual do Rock Rendez Vous. É assim que chega à memória aqueles  lálálás  meios desnorteados  a funcionar como as luzinhas numa árvore de natal. Mas também há lá muito da música popular da Irlanda, talvez como o foco apontado aos Pogues do agora velhinho Shane McGoan. Desengane-se no entanto quem pense que se trata de um mero revivalismo. Diria mesmo ...